Proteção às florestas

Por Sandro Vieira

Houve um tempo em que não se falava em proteção às florestas, pois nesse tempo, tínhamos o Curupira, que parecia cumprir muito bem esse papel, protegendo não só a flora, como também toda a fauna existente nas matas. Mas daí veio o homem branco e com todo o seu ceticismo, aliado a uma imensa sede de poder e riquezas, destruiu não só as histórias e mitos, mas também a própria floresta em si.

Nos tempos do curupira era assim: quando um caçador não respeitava o tempo da natureza, no que diz respeito aos períodos de procriação e amamentação, ou quando este usava o machado de forma indiscriminada, o Curupira emitia gritos e assobios que os enlouqueciam e fazia com que se perdessem pela floresta.

Com seus pés virados ao contrário, ainda era capaz de despistar qualquer perseguidor, fazendo-os ir ao sentido contrário, quando estes seguiam suas pegadas. Além disso, o Curupira ainda costumava levar crianças pequenas para morar com ele nas matas. Após encantá-las e ensiná-las sobre os segredos da floresta durante sete anos, as crianças eram devolvidas às suas famílias, porém, jamais seriam as mesmas, pois nelas brotava um imenso senso de responsabilidade para com a floresta e seus habitantes. Além do Curupira, ainda se falava em muitos outros seres, como o Boitatá, o Caipora, entre outros.

Hoje, estamos aprendendo da pior forma possível que a destruição da floresta é um mal que não se restringe apenas às matas e fauna e sim a toda a população que vive sobre a Terra. Os efeitos de tal devastação já podem ser sentidos através das mudanças climáticas, com invernos cada vez mais frios e verões cada vez mais quentes.

Segundo pesquisas realizadas por órgãos e instituições científicas internacionais, foi constatado um aumento considerável dos níveis de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso concentrados na atmosfera a partir de 1750, período em que se passou a utilizar combustíveis fósseis. Isso, somado à criação e expansão das cidades, tendo como a derrubada de florestas e mau uso do solo, seriam os principais responsáveis pelos atuais e súbitos fenômenos do clima.

Ainda que a vida nos moldes tal qual a conhecemos seja praticamente impensável sem o uso desse tipo de combustível, ao menos temos algumas formas de minimizar os impactos, como por exemplo, o sequestro de carbono.

Como as árvores possuem a capacidade de, através da fotossíntese, transformar o CO2 em oxigênio, quanto mais florestas existirem, menor será a quantidade de gases na atmosfera que provocam o efeito estufa, diminuindo assim o aquecimento global.

Porém, observando o panorama atual, nota-se um desiquilíbrio gritante no que diz respeito à quantidade de gases emitidos e quantidade de gases sequestrados. Enquanto a condição presente pede o plantio e a preservação de florestas, o que vemos são mais e mais notícias de exploração e derrubada de grandes áreas florestais, seja para o uso da madeira, ou mesmo para a criação de novos pastos.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, estima-se que 17% da Floresta Amazônica já tenham sido suprimidos. Além dela, a Mata Atlântica também perdeu cerca de 93% de seu tamanho, enquanto o cerrado deixou de ter 40% de sua área total nos últimos dez anos. Dados assustadores, que trazem não só um baixo nível de sequestro de carbono como também causam um verdadeiro empobrecimento da biodiversidade, contribuindo até mesmo para a proliferação de doenças, uma vez que ocorre um desiquilíbrio no habitat de insetos e outros animais que se tornam vetores de doenças.

Uma realidade que precisa ser de alguma forma repensada, desde o micro, até o macro, pequenas e grandes ações, a começar pelas que estão ao nosso alcance. Plante árvores, reduza o consumo supérfluo, proteja as florestas. Podemos não ter um curupira, mas somos milhões de brasileiros que juntos podemos fazer do planeta um lugar melhor e mais promissor, fazendo renascer em cada um de nós, os ideais e sabedoria dos povos antigos e de seus mitos e lendas.

(*) Sandro Vieira do Instituto Refloresta/São Paulo, colaborador no Projeto Viveiro Educador, patrocinado pela Sabesp.